“O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas”. De Grande Sertão Veredas, de João Guimarães Rosa.

Grande Sertão Veredas, de João Guimarães Rosa, é recheado por máximas de pensamento muito profundas, capazes de distinguir o nosso jeito humano da realidade que nos cerca.

Eu, particularmente, confesso, embora não deveria, que nunca terminei a leitura de Grande Sertão Veredas, porque a sua literatura é tão vertiginosa, a ponto de desvelar, sem medida, tantas verdades, que é impossível virar uma página sem divagações sem fim.

Quer um exemplo? A frase “viver é muito perigoso”, tão famosa quanto dita no livro, uma vez me levou para um lugar tão corriqueiro, que me fez trocar o verbo “viver” por “correr”.

Explico: há muito tempo, escuto, com frequência, nos corredores do ambiente corporativo, a palavra “correria”. É comum cruzar com um colega, cuja resposta ao tradicional “tudo bem?”, seja “correria”, que aliás já virou jargão absoluto como desculpa a desencontros.

Uma vez ouvi em uma palestra que os encontros acontecem por meio de dois “nós”: “nós” enquanto questão; e “nós” enquanto pessoas.

Enquanto questão, “nós” é bagagem interna, onde ecoam os “nós” que precisam ser atados e desatados – dentro.

Enquanto pessoas, “nós” é pronome plural – a voz dada ao nosso eu em conjunto com o outro. É a conexão – de fora.

De dentro para fora ou de fora para dentro, nossos “nós” estão sempre em busca de encontros. Encontros que iluminam a nossa criatividade, nosso embasamento científico, a voz da experiência – o novo.

Dito isso, pergunto: como promover esses encontros com “correria”?

A “correria” é um furacão de circunstâncias. Quanto mais você corre, menos você vê no seu entorno, em função de uma única direção, que pode nem ser aquela que você deseja, mas diante do caráter acelerado do destino contemporâneo, você vai.

Seus líderes dizem para correr. Seu trabalho diz para correr. O tempo diz para correr. Então, você corre, sem o prazer da caminhada. Sem o prazer das novas possibilidades. Sem mudança.

Quem somos nós sem mudança, se “o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas”?

Que em 2020, possamos mudar mais, sem correr, porque o verbo correr não conjuga com o novo.

Aliás, definitivamente: correr é muito perigoso.

Marília Marcucci

Marília Marcucci

Gestora de comunicação da Moore Stephens
mmarcucci@moorebrasil.com.br