Modelagem financeira: entenda mais sobre essa ferramenta

Enquanto a contabilidade permite compreender as demonstrações financeiras históricas de uma empresa, a projeção dessas demonstrações abre a possibilidade de explorar como a empresa se comportará sob uma variedade de diferentes premissas, melhorando assim a base para tomada de decisões operacionais, de investimentos e de financiamento.

A construção de modelos financeiros que contemplem a projeção do Balanço Patrimonial, Demonstrativo de Resultado do Exercício (DRE) e Demonstrativo de Fluxo de Caixa (DFC) irá ajudar os stakeholders a avaliar melhor os impactos das decisões a serem tomadas.

Para clarear a função da modelagem financeira e sua necessidade, especialmente na época do COVID-19, este artigo propõe uma análise dividida em quatro componentes principais:

  • Conceito e importância da modelagem financeira;
  • Melhores práticas do uso da modelagem financeira;
  • Como fazer a modelagem financeira; e
  • Necessidade da modelagem financeira durante a crise.

O que é modelagem financeira e sua importância

A modelagem financeira é uma disciplina da gestão focada em prever o desempenho financeiro de um negócio. A previsão é tipicamente baseada no desempenho histórico da empresa e em pressupostos sobre o futuro, e requer a preparação do balanço patrimonial, da DRE e do DFC.

A importância da modelagem financeira está baseada principalmente na sua capacidade de visualizar como as decisões operacionais, de investimento e de financiamento interagem para impactar os resultados no futuro. Ela é amplamente utilizada pelas organizações para subsidiar processos de planejamento estratégico e orçamentário.

Com base na elaboração das três demonstrações que determinam o fundamento para tomada de decisões, conseguimos elaborar modelos financeiros mais avançados como: modelos de fluxo de caixa descontado (FCD) para se chegar ao valuation do negócio ou modelos de reestruturação empresarial, que contemplem mudanças no modelo de negócio, bem como renegociação de dívidas. Esses modelos são especialmente importantes quando é necessário interagir com o público externo como investidores ou bancos.

Elementos básicos para modelagens financeiras

Uma característica chave da modelagem financeira eficaz é ser “integrada”, o que significa que os seus três relatórios (DRE, balanço patrimonial e DFC) são modelados de forma a registrar as relações e as interligações de vários itens específicos ao longo dos relatórios financeiros.  Esse modelo integrado é poderoso por permitir ao usuário alterar uma premissa em uma parte do modelo, a fim de visualizar como ele impacta todas as outras partes de forma consistente e precisa.

 

 

Para garantir consistência e precisão, e consolidar todas as informações relevantes, o uso de ferramenta adequada é fundamental. As planilhas eletrônicas ainda seguem como as ferramentas mais utilizadas para realizar modelagem financeira, pela facilidade de acesso e a sua flexibilidade para construir os modelos. Porém, tem surgido cada vez mais Fintechs com foco no desenvolvimento de ferramentas que integram relatórios contábeis com modelagens preditivas, buscando aumentar a confiabilidade e acurácia dos relatórios e modelos.

Como fazer a modelagem financeira

O primeiro passo é o levantamento dos dados financeiros históricos agrupando-os nas diferentes demonstrações (DRE, Balanço Patrimonial, DFC).  Com as informações financeiras históricas, deve-se começar avaliar algumas métricas, tais como: crescimento de receita, margens operacionais, desembolsos de capital e ciclo financeiro (prazo médio de pagamento, prazo médio de estocagem e prazo médio de recebimento). Baseando-se nos dados internos históricos e variáveis externas (inflação, crescimento do PIB, concorrentes etc.), é possível determinar premissas que irão direcionar a projeção das demonstrações financeiras.

Com as premissas definidas, é hora de começar a projetar a DRE. As primeiras definições se referem ao horizonte a ser projetado, e os níveis de detalhamento nos quais devem ser apresentados o período projetado, mensal, trimestral ou anual. Essas definições vão depender muito do perfil do negócio, do objetivo da modelagem e do público que irá utilizar a informação para tomada de decisão.

A projeção normalmente começa com a previsão das receitas – o maior desafio de qualquer processo de modelagem –, por isso conhecer profundamente o mercado e o negócio analisado é crítico. Dependendo da aplicação, a projeção de receitas pode ser mais detalhada, sendo desdobrada em unidades de negócios, famílias de produtos etc. Cada linha de gastos projetada tende a ser uma função da previsão das receitas; identificar as funções que melhor representam o comportamento dos custos direto e indiretos, despesas administrativas, comerciais e financeiras, impostos etc. em relação à receita é determinante para a qualidade da modelagem.

Após a DRE, deve ser projetado o Balanço Patrimonial. O balanço patrimonial é um demonstrativo que apresenta uma fotografia dos bens e obrigações de uma empresa no fim de determinado período. O balanço demonstra como estão aplicados os recursos (ativos) e quais as suas fontes (passivo e patrimônio líquido).

As variações do balanço patrimonial são, em grande parte, direcionadas pelas premissas operacionais da DRE, principalmente pelo impacto que a atividade operacional terá sobre as contas que impactam na necessidade de capital de giro (Clientes, Estoque, Fornecedores, Mão de Obra, Tributos), o que reforça a importância do desenvolvimento de modelos integrados, que garantam o adequado registro das relações e as interligações entre os relatórios. Além das contas de giro, também devem ser projetados os investimentos em ativos tangíveis e intangíveis, empréstimos e financiamentos, entre outros itens.

Com o balanço patrimonial completo (exceto para caixa), o último elemento é a projeção da DFC. Ao contrário da DRE ou do balanço patrimonial, não se está prevendo nada explicitamente na demonstração de fluxos de caixa, e não é necessário inserir resultados históricos antes da previsão. Isso porque a demonstração dos fluxos de caixa é uma reconciliação das variações anuais no balanço patrimonial, por isso também é conhecido como fluxo de caixa indireto. A projeção do fluxo de caixa deve ser feita em três seções principais: caixa das atividades operacionais, caixa das atividades de investimento e caixa das atividades de financiamento.

Para aprofundar o conhecimento sobre a elaboração da previsão de fluxo de caixa é recomendada a leitura do nosso artigo: Como aprimorar a gestão do fluxo de caixa.

Modelagem financeira durante e no pós COVID-19

A Covid-19 gerou grande impacto na atividade econômica, afetando drasticamente as receitas e custos dos negócios. Por isso, mais do que nunca, torna-se essencial antecipar e estimar os impactos da crise nas demonstrações financeiras, especialmente para negócios que precisaram aumentar significativamente o endividamento para sobreviver.

Durante o período de distanciamento social, o grande desafio das empresas foi garantir a continuidade do negócio, preservando caixa e os principais ativos do negócio. Após esse período vem o momento da recuperação e o planejamento do negócio para o futuro, e é nesse momento que a modelagem financeira será fundamental para direcionar as ações para reestruturação dos negócios, de sua estrutura de custos, de endividamento e recursos estratégicos.

Criar modelos de projeção financeira flexíveis e integrados que permitam construir diferentes cenários de receitas, custos, investimentos etc., e que permitam análise da sensibilidade do resultado do negócio a variáveis-chave é crítico em um mundo ainda permeado por muita incerteza

Gustavo Sobrinho

Gustavo Sobrinho

Diretor de consultoria especialista em finanças da Moore Belo Horizonte
gustavo@moorebrasil.com.br